Mesmo assim: como Habacuque passou do “até quando?” ao “ainda que”

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Mesmo assim: como Habacuque passou do “até quando?” ao “ainda que”

Habacuque 3.1-15 e 3.16-19 | Mensagens do Pr. L. Roberto Silvado e do Pr. Thiago Chabaribery, IBB, 01/11/2026, encerramento da série “A Essência da Fé”

Se você acompanhou a série da IBB no livro de Habacuque durante outubro, deve ter reparado em três frutas na arte das mensagens: figo, azeitona e uva. O Pr. Roberto Silvado explicou o motivo no último domingo lendo com a igreja o texto que dá nome a esta série de artigos: “ainda que a figueira não floresça e não haja frutos nas videiras, ainda que a colheita de azeitonas não dê em nada… mesmo assim me alegrarei no Senhor”. “Esse é o resumo do livro. Ele passa por toda a dificuldade, pelo susto com a resposta que Deus entrega a ele, e dá um grito de fé no final.”

É um livro curto, de três capítulos, e a igreja o percorreu numa jornada: a fé que nasce em meio a dúvidas (capítulo 1), a fé que aprende a esperar e discernir (capítulo 2), e agora a fé que se rende quando as circunstâncias não mudam (capítulo 3). Domingo, as duas mensagens dividiram o capítulo final: de manhã, a oração (3.1-15); à noite, a declaração que fecha o livro (3.16-19). O que segue é um resumo das duas, com a palavra que elas têm em comum.

Orou, pediu, clamou, e não mudou nada

O Pr. Roberto fez a pergunta que muita gente carrega calada: “você orou, você pediu, você clamou, e não mudou nada. Significa que é melhor eu jogar fora a minha fé? Significa desistir de Deus? Não. Eu persevero. Porque, mesmo no meio da circunstância adversa, Deus está presente agindo na minha vida.”

Habacuque é “o profeta que canta dentro da noite” (Henrietta Mears). Ele “percorre o caminho do desespero à esperança, do temor à fé, da angústia avassaladora à alegria indizível”. E o capítulo 3 é o lugar em que isso acontece, porque o capítulo 3 é uma oração: “o profeta Habacuque entoou esta oração” (3.1). O pastor resumiu a postura do profeta numa imagem que repetiu a manhã inteira: “o coração que ama a Deus torna-se uma ponte. Ele não ignora a distância entre a dor humana e a esperança divina, mas cria uma ponte para que a esperança divina chegue até a dor humana”.


“Estou maravilhado com tuas obras”

A oração de Habacuque começa com memória: “ouvi a teu respeito, Senhor; estou maravilhado com tuas obras; neste momento de tanta necessidade, ajuda-nos outra vez, como fizeste no passado” (3.2). O pastor sugeriu começar o devocional de amanhã com essa frase. E deu exemplos de maravilha bem curitibanos: “para o curitibano, ver o sol é uma maravilha. Nós temos que estar louvando a Deus por aquela bola amarela no céu. O nome daquilo é sol”. Os pássaros multicoloridos do fotógrafo que ele passou a seguir (“Deus não economiza nas cores”). O oxigênio que entra na corrente sanguínea quando a gente respira fundo: “se você não é da área da saúde, você nem entende. É uma maravilha de Deus”.

“Habacuque está dizendo: Deus, eu vejo toda essa desgraça, toda essa morte que vem com os que vão nos atacar, mas eu ainda fico maravilhado pensando em tudo que o Senhor já fez, em tudo que o Senhor é.” E então o pedido: “ajuda-nos outra vez”. O pastor contou que, preparando a mensagem, começou a orar: “Deus, aviva o meu coração como o Senhor já fez no passado. Aviva, Senhor, a tua obra, para que sejamos uma igreja amorosa para corações carentes, uma igreja ousada em tempos difíceis”. E abriu a própria história com a igreja: o carnaval de 1975, quando acertou a vida com Deus; o dia em que, ajoelhado ao lado da cama, “o céu se abriu” e Deus confirmou o chamado ao ministério; a igreja que ele e a Hedy plantaram nos Estados Unidos, e um show de rock com “uns dois, três mil jovens de joelhos, um silêncio em que ninguém se mexia, tamanha era a consciência da presença de Deus”. “Deus age na história da nossa vida. Mas não ficou só lá atrás.” Duas semanas atrás, 4h30 da manhã, “eu com o olho estalado, virei para um lado, virei para o outro e disse: eu não tenho vocação para panqueca. Levantei, abri a minha Bíblia e comecei a orar. Que tempo especial com Deus”.

Foi aí que a igreja se ajoelhou, cantou “quero voltar ao primeiro amor” e celebrou a Ceia: “ao celebrarmos a Ceia do Senhor, nós estamos dizendo: Deus, eu sei que o Senhor é um Deus presente na história da minha vida”.


O Deus da história é o Deus que age

A segunda parte da oração (3.5-15) é um poema sobre o que Deus já fez: as pragas, o mar dividido, o sol e a lua parados. “A fé israelita é baseada na história, não em filosofias. A fé cristã é baseada na morte e ressurreição de Jesus. O que elas têm em comum é que a história é o palco da revelação de Deus.” Por isso o pastor pôde perguntar: “qual é o seu impossível hoje? Que você precisa colocar diante de Deus e dizer: Deus, para mim é impossível. Mas quando eu coloco isso nas suas mãos, o Senhor olha e diz: ah, isso aí dá para dar um jeito. Você acredita nisso? É esse o Deus que nós servimos.”

Ele pediu que a igreja mandasse Lamentações 3.22-23 por WhatsApp para alguém naquela manhã (“o amor do Senhor não tem fim; suas misericórdias se renovam cada manhã… não tem como Deus desistir de você; e, só para te informar, Deus está querendo começar tudo de novo hoje cedo”) e, mais tarde, a primeira parte do Salmo 46.10 (“aquiete-se e saiba que eu sou Deus”): “você vai estar sendo ponte para alguma pessoa sair da preocupação e chegar no porto seguro da esperança”.

Duas frases do esboço ele pediu para ler devagar. “A fé leva a Deus aquilo que pesa na terra e recebe dEle aquilo que sustenta a caminhada. O que está pesando? E o que você precisa receber de Deus para prosseguir?” E: “quando o coração se volta para o Senhor, a oração se torna passagem entre o que vemos e o que cremos, entre a crise que nos cerca e a graça que nos sustenta”.


O nevoeiro de George Müller

Para fechar, a história do missionário inglês num navio a caminho de Quebec, parado por um nevoeiro. Müller procura o comandante: “eu tenho um compromisso no sábado, e eu nunca perdi um compromisso. Vamos nos ajoelhar e orar”. O comandante pensa: “que homem é esse? É do manicômio? Oração não resolve nevoeiro”. Müller faz uma oração simples. Quando o comandante vai orar também, sente a mão dele no ombro: “comandante, não ora, não. Primeiro, porque o senhor não acredita que Deus vai remover o nevoeiro. Segundo, porque eu já orei e Deus já vai responder. O senhor pode ir lá fora ver se o nevoeiro já desapareceu?”. Ele abre a porta. O nevoeiro tinha dissipado.

“Tem algum nevoeiro na sua vida que se tornou um impossível para você? Mas para Deus não existem impossíveis.” A oração proposta: “Senhor, abra meus olhos para que eu veja pela fé esse nevoeiro removido, essa situação resolvida, esse relacionamento restaurado”. E a decisão: “Senhor, hoje eu reafirmo a minha confiança em ti e vou descansar nos seus braços. Eu não vou deixar mais que a ansiedade e a preocupação tomem conta dos meus dias”.


À noite: o que mudou não foram as circunstâncias

O Pr. Thiago Chabaribery fechou a série com os quatro versos finais. “Habacuque não chega ao capítulo 3 como um homem que deixou de sentir medo. Ele sentia medo. A diferença é que agora o medo não determinava onde ele depositava a confiança.” Daí a tese da noite, que serve de tese para a série inteira: “a fé não é a certeza de que tudo dará certo, mas a confiança de que Deus continuará sendo Deus mesmo quando tudo parecer dar errado. Existe uma grande diferença entre confiar em Deus porque acreditamos que tudo vai melhorar, como se fosse uma barganha, e confiar nEle porque Ele é”.


Confiar, mesmo com medo

“Estremeci por dentro quando ouvi isso; meus lábios tremeram de medo; minhas pernas vacilaram” (3.16). O corpo do profeta reage à notícia da invasão; e, no mesmo versículo, ele diz: “esperarei em silêncio”. O pastor trouxe isso para o banco da igreja: “quando recebemos uma notícia que não esperávamos, perdemos o sono, ficamos ansiosos, perdemos a disposição para coisas simples. Talvez você chegou aqui por fora sorrindo, cumprimentando as pessoas, mas só você sabe como está por dentro. A fé não é a ausência do medo, mas a confiança naquele que nos sustenta quando o medo aparece”. Jesus, no Getsêmani, não negou a dor; submeteu-se ao Pai. “Quando eu tiver medo, porém, confiarei em ti” (Salmo 56.3). E a citação do livro do mês: “essa confissão não nasce de temperamento otimista. Nasce de uma fé que foi formada pela travessia”.


Esperar, mesmo sem fruto

Chegamos ao verso 17, “talvez um dos versículos mais esperados”, disse o pastor, “mas esquecemos que existe tudo o que vem antes”. A figueira que não floresce na estação de florescer, a videira sem uvas, a oliveira que falha, os campos vazios, os currais sem rebanho: “não era só uma estação difícil; era um cenário de possível colapso. Senhor, e agora?”.

Ele leu ali três dimensões da perda. Estação, quando a vida não floresce: “eu fiz tudo dentro do processo e as coisas não aconteceram. Investimos no casamento e os frutos não aparecem; oramos pelos filhos e o retorno não vem. A nossa fé não está na certeza de que a próxima estação será melhor, mas na certeza de que Deus permanece fiel nesta estação. O fruto não chegou, mas Ele, sim”. Provisão, quando o que precisamos falta: “o dinheiro não dá para pagar o que preciso; o emprego é perdido. A nossa confiança não deve estar apenas naquilo que Deus nos dá, mas em quem Deus é. Tudo é dEle”. Segurança, quando perdemos a estabilidade: “um diagnóstico, um projeto que não acontece; no final das contas, não temos controle”.

“Isso não nos tira da responsabilidade de fazer o melhor na estação, de correr atrás da provisão, de pensar no futuro. O problema começa quando fazemos de tudo isso o fundamento da nossa segurança. Porque hoje eu tenho. E amanhã?” Paulo aprendeu “o segredo de viver em qualquer situação, de estômago cheio ou vazio” (Filipenses 4.12). E a pergunta que a igreja levou para casa: “se Deus não mudar nada da minha estação, da minha provisão, da minha segurança, Ele continuará sendo suficiente para mim?”.


Adorar, mesmo sem respostas

“Mesmo assim me alegrarei no Senhor” (3.18). “Uma das palavras mais importantes dessa passagem: mesmo assim. O profeta não está dizendo: se amanhã o fruto aparecer, eu vou te louvar. Ele diz: mesmo sem nada, eu já tenho tudo no Senhor.” A alegria dele não estava na certeza de que tudo mudaria, mas na certeza de que Deus continuava sendo o seu Salvador. “Quando você olha para a sua vida, qual é a fonte da sua alegria? Se formos nos alegrar apenas diante das circunstâncias, quantos minutos vamos ficar alegres?”

O pastor contou uma segunda-feira em casa. Os três filhos reclamavam demais: não iam ao jogo, não tinha a fruta que queriam. Quinze minutos depois, o interfone: um rapaz que vive na rua, conhecido da família, pedindo um tênis e um cobertor. “Nossa, eu sonhava com esse tênis.” “Você mora onde?” “Cada dia num lugar.” Os meninos voltaram para dentro calados. O pai resistiu ao sermão (“agora vocês vão aprender a dar valor”) e fez só uma observação: “vocês viram a alegria dele recebendo um tênis e uma coberta? Quantos tênis vocês têm?”. E completou, para a igreja: “aquela alegria ainda não era o suficiente, porque amanhã ele precisaria de outra coberta. A nossa alegria, se não estiver no Senhor, vamos continuar reclamando por qualquer coisa, esquecendo que, mesmo se não temos nada, nós já temos tudo, porque temos Ele”. “Às vezes a nossa oração é: Senhor, se o Senhor resolver essa situação, aí sim eu vou ficar feliz. Será? Habacuque nos ensina a dizer: Senhor, mesmo se esse problema ainda não foi resolvido, eu quero encontrar em ti a minha paz.”


Prosseguir, mesmo nas dificuldades

“O Senhor Soberano é minha força; Ele torna meus pés firmes como os da corça, para que eu possa andar em lugares altos” (3.19). A corça caminha com agilidade em qualquer terreno; “ela não fica parada”. “Observe que o profeta não diz: Deus vai tirar as pedras do caminho. Ele declara que Deus o fortalece para continuar caminhando.” E o par de frases que a igreja repetiu na saída: “às vezes nós pedimos que Deus mude o terreno, mas o que Ele quer mesmo é fortalecer os nossos pés para que continuemos a caminhar. Às vezes pedimos que Ele retire a dificuldade, mas o que Ele quer mesmo é que aprendamos a depender dEle”. A Paulo, com o espinho na carne, Deus respondeu: “minha graça é tudo de que você precisa; o meu poder opera melhor na fraqueza” (2 Coríntios 12.9). “Deus nem sempre muda imediatamente o terreno, mas é poderoso para nos sustentar a cada passo.”


A lista

“Habacuque começa o livro perguntando ‘até quando, Senhor?’. No final, algo mudou. Não foram as circunstâncias. Não foi a resposta de Deus. Foi a maneira como ele passou a olhar para Deus. A maturidade da nossa fé não está apenas em confiar quando Deus muda as circunstâncias, mas em continuar confiando quando elas ainda não mudaram.” A esperança do cristão “não está apenas na possibilidade de uma vida melhor, mas na certeza de que Jesus está conosco. Isso é tudo. Isso basta. Ou deveria bastar”.

O pastor terminou com uma tarefa: “faça uma lista: ‘ainda que…’, e complete dentro da sua realidade. Ainda que as estações não respondam como deveriam, ainda que a provisão não seja segura, ainda que aquilo que eu construí com as minhas mãos desapareça: ainda que, eu me alegro no Senhor”. E três decisões: confiar mesmo sem compreender; adorar mesmo sem ver os frutos; continuar caminhando, porque Cristo é a esperança.

É assim que a série termina, e é assim que o livro termina. De manhã, um pastor que orou no nevoeiro e disse que “para Deus não existem impossíveis”. À noite, um pastor que leu em silêncio: “quando as flores faltarem, quando os frutos faltarem, quando os campos faltarem, quando os currais estiverem vazios, ainda restará ao crente em Jesus a seguinte declaração: eu me alegro no Senhor e exulto no Deus da minha salvação”. Os frutos podem faltar. As estações podem mudar. As nossas forças podem acabar. Mesmo assim.


As duas mensagens estão completas no canal da IBB no YouTube, na playlist da série “A Essência da Fé”: “Aviva a tua obra: a fé que se rende em oração” (Pr. L. Roberto Silvado) e “A fé que permanece quando tudo falta” (Pr. Thiago Chabaribery). O livro “A Essência da Fé: reflexões baseadas no livro de Habacuque” (L. Roberto Silvado e Antonio V. Kukul Filho) está na livraria da igreja.

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