Há um livro na Bíblia em que o profeta não repreende o povo. Ele repreende a Deus. “Até quando, Senhor, terei de pedir socorro? Tu, porém, não ouves” (Habacuque 1.2). A IBB começou no domingo uma série nesse livro, que vai até novembro, e lançou, junto, o livro do mês, A Essência da Fé, escrito pelo Pr. L. Roberto Silvado e pelo Pr. Antonio V. Kukul Filho, diretor da Convenção Batista Paranaense. Os dois pregaram no mesmo dia: o Pr. Kukul, de manhã, deu o panorama dos três capítulos; o Pr. Roberto, à noite, começou pelos quatro primeiros versículos. Este artigo junta as duas mensagens.
Um profeta intercessor
O Pr. Roberto abriu com uma frase de Hernandes Dias Lopes: “profetas normalmente falavam a mensagem de Deus confrontando o pecado do povo. Habacuque não confrontou o povo, mas a Deus. Quem estuda Habacuque descobre que ele é mais um profeta intercessor do que um profeta pregador”. Habacuque não falou à nação da parte de Deus; falou a Deus da parte da nação. Jó trata do sofrimento de uma pessoa; Habacuque, do sofrimento de uma comunidade. O nome significa “abraço”. Ele viveu por volta de 600 a.C., contemporâneo de Jeremias, na transição de poder entre a Assíria e a Babilônia, “os assírios eram horrorosos, os babilônios, piores”, logo depois da morte do bom rei Josias, quando o povo voltou a se afastar de Deus e a maldade social crescia.
É daí que vem a pergunta: “até quando?”. Habacuque olhava para um país de violência, lei amortecida, tribunais sem justiça e perversos mais numerosos que os justos, e Deus parecia não fazer nada. “Parece o jornal dos nossos dias”, disse o pastor, e aplicou a Judá e ao Brasil a frase de Will Durant, citada por Billy Graham: “nenhuma grande nação jamais foi vencida até haver destruído a si própria”.
Deus não tem medo das suas dúvidas
Antes de entrar no texto, o Pr. Roberto deixou a frase que organiza a noite: “expor as suas dúvidas a Deus não é falta de fé. É sinal de que você existe e pensa. Deus não nos deu cérebro para separar as orelhas. Ele nos fez à sua imagem e semelhança, seres pensantes, e gosta de se relacionar conosco como seres pensantes. Deus não tem medo das suas dúvidas. Ele tem todas as respostas.”
E desfez um ditado: Deus não “escreve certo por linhas tortas”. Deus escreve certo; nós é que vemos as linhas tortas, porque os pensamentos dele são mais altos que os nossos, e Ele não é nosso servo nem fica nos dando explicações. O livro, resumiu o pastor, traz três lições, “pano para manga para uma semana de PGM”: uma moral, os violentos serão punidos; uma espiritual, Deus fortalece o desanimado; uma teológica, o justo viverá pela fé.
O que permanece da fé quando a resposta não vem
O Pr. Kukul começou pelo hino que a orquestra tinha acabado de tocar, “Sou feliz com Jesus”, escrito por um pai que recebeu um telegrama com duas palavras, “salva sozinha”, avisando que as filhas tinham morrido num naufrágio. “Isso só é possível quando alguém desenvolve uma fé saudável, uma fé bíblica, uma fé cuja essência está pautada nos valores do Reino.” Habacuque, disse ele, nos coloca diante de uma pergunta: o que permanece da nossa fé quando aquilo que esperávamos não acontece, quando Deus parece demorar, quando a resposta nos desconcerta e os frutos não são visíveis? “Essência” é o que está mais internalizado e determina escolhas e trajetórias; “o que cremos determina como vivemos”. E ele apresentou três evidências de uma fé que chegou à essência.
A primeira é a disposição para lidar com questões difíceis. Todo mundo vai passar por vales: a notícia do desemprego, de uma doença, de um câncer, do resultado de uma eleição. “Até quando eu vou ter que aguentar esse homem? Essa mulher? Essa situação? Eu começo dizendo ‘até quando’ e você completa.” O pastor contou duas cenas que viveu. Em Ponta Grossa, um rapaz desempregado que ele discipulava havia três meses jogou a Bíblia aos pés dele: “onde é que está Deus, que não abre uma porta de emprego para mim?”. Em Quatro Barras, numa congregação da IBB, uma mãe de um filho gravemente doente se ajoelhou no chão e gritou: “onde é que estava o seu Deus, que fez isso com o meu filho?”. Habacuque fez a mesma pergunta, e a situação dele piorou: Deus respondeu que estava levantando os babilônios. Mas “Habacuque não está diante de um simples incômodo pessoal; ele vê a injustiça comprometendo a vida do seu povo. Sua fé não lhe permite tratar o mal como normalidade; por isso, transforma a inquietação em clamor”. E a frase do livro: “a pergunta de Habacuque não encerra a fé; inaugura sua travessia”. A diferença, disse o pastor, não está entre perguntar e reclamar, mas entre levar a queixa a Deus disposto a ouvi-lo ou transformá-la em afastamento, cinismo e incredulidade.
A segunda é a espera ativa pela intervenção de Deus. Nem toda dúvida vale a mesma coisa. “Há uma diferença entre indignação e inquietude santa. A indignação pode nascer do temperamento, da preferência, da ideologia, da frustração ou do cansaço; a inquietude santa nasce de uma consciência tocada pelo caráter de Deus.” Aqui não entra, brincou ele, “estou indignado com o governo” ou “com o professor que me deu nota baixa”. A inquietude santa vira oração, responsabilidade e busca por fidelidade. Habacuque sobe à torre de vigia para ouvir, e o que ouve é o coração do livro: “o justo viverá pela sua fé” (2.4). “Habacuque não recebe o controle do futuro; recebe uma Palavra pela qual viver. Enquanto a visão não se cumpre, ele é chamado a permanecer fiel.” Mesmo sem entender, “eu confio, porque Deus não saiu do trono. Jesus reina.” Porque “a alma perplexa costuma procurar muitos lugares antes de permanecer diante de Deus: explicações apressadas, culpados imediatos, distrações, discursos prontos. Habacuque escolhe outro caminho. Ele sobe à torre para ouvir.” O contraste é Caim: a expectativa frustrada que virou murmuração e “cara de quem chupou limão azedo”.
A terceira é o percurso da oração amadurecida. Habacuque já orava quando perguntava “até quando?”; no capítulo 3 a oração dele alcança outra profundidade. “Senhor, tenho ouvido a tua fama e me sinto alarmado… na tua ira, lembra-te da misericórdia” (3.2). A palavra traduzida por “fé” em 2.4, lembrou o pastor, tem no hebraico o sentido de fidelidade: “viver em fé hoje, amanhã e depois e depois”, até Jesus voltar. Oração madura começa no reconhecimento de quem eu sou diante de quem Deus é, como Isaías diante do trono: “ai de mim, estou perdido… os meus olhos viram o Rei”. “Vivemos num tempo em que queremos adaptar Deus à nossa necessidade, mas a Bíblia revela que sou eu que me adapto a Deus.” Depois de cantar a grandeza de Deus acima dos deuses da Babilônia, o profeta termina com a declaração que coroa a trajetória: “ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na videira… mesmo assim eu me alegro no Senhor e exulto no Deus da minha salvação” (3.17-18). Uva, figo e azeitona eram a economia inteira daquele povo; “imagine que você recebe um telegrama dizendo que você não tem mais nada. Qual é a postura que você vai ter?”. O percurso vai da adoração à súplica, da súplica ao louvor, do louvor à rendição plena, “sustentada pela confiança de que Ele permanece como fundamento da nossa alegria, mesmo quando faltam os frutos”. “A minha alegria não depende de ter pouco ou muito dinheiro. A minha alegria é o Senhor.”
Não pare de orar na véspera da resposta
À noite, o Pr. Roberto ficou no primeiro degrau dessa caminhada: a crise com o silêncio de Deus. “Você já teve aquele dia em que você ora e parece que a oração bate no teto e cai?” Ele contou a história da cidadezinha americana em que um homem conseguiu licença para abrir o primeiro bar; a igreja fez vigílias e caminhadas de oração ao redor do prédio; um raio caiu e não sobrou nada; o dono processou a igreja, alegando que as orações queimaram o bar; a igreja contratou advogado para provar que não tinha nada a ver com aquilo; e o juiz concluiu que tinha diante de si “uma igreja que não acredita em oração e um dono de bar que crê”. Foi o que aconteceu em Atos 12: os discípulos oravam por Pedro preso, Pedro bateu à porta, a moça ouviu a voz dele e saiu correndo sem abrir. “Oração sem expectativa pode ser descrença disfarçada.”
A provação, lembrou ele com 1 Pedro 1.6-7, é o fogo que prova a fé: “no meio da provação, todo o nosso glacê religioso derrete. Pergunte a alguém que recebeu um diagnóstico de câncer. A provação derrete em nós o que é falso”. Habacuque estava perplexo com a demora de Deus, “e olha que ele não esquentava leite no micro-ondas nem tinha internet rápida”. O pastor lembrou a família, no Rio Grande do Sul, agendando ligação para o Rio de Janeiro e indo à telefônica na segunda-feira às oito da noite. “Nós vivemos numa sociedade do instantâneo. E Deus não é instantâneo.” O “até quando?” dos mártires em Apocalipse 6.10 não é desaforo; é grito de angústia. “Se é esse o sentimento do seu coração, derrame o seu coração diante de Deus. Ele já sabe. Mas quando você reconhece, o Espírito pode curar a sua ferida de alma.”
Deus sempre responde, mas não do jeito que a gente quer. Habacuque pediu o fim dos assírios e um avivamento; Deus respondeu com os babilônios e setenta anos de exílio. “Deus, não foi bem isso que eu pedi na minha oração.” Daí a advertência da noite: “cuidado. Não pare de orar na véspera da resposta. É natural ter dúvidas de como Deus age e para onde Ele está me conduzindo. Mas mantenha Deus envolvido no seu processo de busca, porque só assim o Espírito Santo poderá falar com você. E reclame quando o silêncio for muito longo. Diga isso a Deus, como Habacuque.”
A parábola da impressora
Para o versículo 3, o pastor usou uma cena que todo mundo conhece. Você manda imprimir, a impressora não reage; manda de novo, nada; manda a terceira vez, e saem três cópias. “Sabe por que isso acontece? Porque nós demos o primeiro comando, não vimos o resultado e assumimos que ela não entendeu. Se eu tivesse dado o primeiro comando e esperado, em oração, agradecendo porque tenho um computador, uma impressora e dinheiro para o papel, o que ia acontecer? Ia sair o papel. Isso é uma parábola do que acontece conosco com Deus. Quando eu não vejo Deus agindo, não significa que Deus não está agindo. Deus está sempre agindo, todo o tempo, a nosso favor.” Romanos 8.28, “o texto mais citado e mais difícil de viver”, ganha outra força na NVI: não “todas as coisas cooperam”, mas “Deus age em todas as coisas”. “É por isso que o justo vive pela fé.”
Sobre o versículo 4, a lei amortecida e a justiça corrompida, ele citou Dostoiévski, “se Deus não existe, tudo é permitido”, e o Pr. Isaltino Coelho: “a certeza da impunidade é um poderoso estímulo para o transgressor; é por esta razão que o cristão não compactua com o mal; ser conivente é estimular o erro”. Ser cristão não é ser passivo: não busca vingança, mas busca justiça. E conivência começa pequena, no sorriso amarelo da roda de piada suja, “pecado por omissão”. Mas então, Deus não deveria intervir e punir logo? O pastor devolveu a pergunta: se Deus matasse os murmuradores como em Números 16, os mentirosos como Ananias e Safira, os filhos desobedientes como na lei antiga, “quem sobraria? Eu sei que eu não sobraria. E qual seria a virtude de você persistir fazendo o certo, de ser fiel no meio da provação?”. Teríamos o Grande Irmão de 1984. “Um Deus moral que disciplina e recompensa, sim. Um Deus de terror, não. Esse não é o Deus do evangelho.”
A malinha de perguntas
No fim, o pastor contou que tem o hábito de escrever as próprias orações e desafiou a igreja a escrever as dúvidas, frustrações e perguntas para Deus: “depois leia e se assuste com você mesmo; serve de espelho”. E abriu a dele. “Senhor, eu não tenho as respostas, e talvez eu morra sem tê-las. Eu acho que eu vou morrer sem ter a resposta de por que o meu irmão, com 23 anos, morreu. Na minha cabeça humana não faz sentido. Mas quem disse que a vida é justa? Vivemos num mundo caído, em que o pecado trouxe destruição e morte. Uma coisa eu sei: quando eu chegar do outro lado da morte, a presença de Jesus vai ser tão plena que eu não vou nem fazer essa pergunta. Eu brinco que eu tenho uma malinha com as minhas perguntas, e de vez em quando eu fico conversando com Deus. Deus não tem medo dessa malinha. Ele sabe todos os porquês. Mas eu já descobri que eu não preciso saber, porque eu sei quem sabe, e Ele é confiável.”
Os dois pastores subiram a mesma montanha por lados diferentes. O Pr. Kukul mostrou o cume: um profeta que começou perguntando “até quando?” e terminou cantando “ainda que a figueira não floresça, eu me alegro no Senhor”, e que chegou lá não porque recebeu todas as explicações, mas porque aprendeu a confiar. O Pr. Roberto mostrou o primeiro passo e o último: perguntar não é pecado, Deus não tem medo das suas dúvidas, o perigo é desistir na véspera; e, lá na frente, a malinha fechada nas mãos de quem sabe.
Na semana passada, Josias encontrou a Palavra perdida dentro do templo. Habacuque entra em cena logo depois da morte de Josias, quando tudo volta a desmoronar, e nos ensina o que fazer quando a reforma não aconteceu, a resposta não veio e o país continua como está. O pastor pediu uma coisa simples para esta semana: leia Habacuque inteiro, numa sentada só. São três capítulos. Leia com a sua pergunta na mão. E depois faça com ela o que o profeta fez: suba à torre, e espere.
Artigo produzido pelo Ministério de Comunicação da IBB a partir das mensagens ministradas em 11/10/2026 pelo Pr. Antonio V. Kukul Filho (Habacuque 1.1-6; 2.1-5; 3.1-2,16-19) e pelo Pr. L. Roberto Silvado (Habacuque 1.1-4), na abertura da série “A Essência da Fé”. Citações do livro A Essência da Fé: reflexões baseadas no livro de Habacuque (Discipular/REBAP).