No domingo em que o Brasil foi às urnas, a IBB ouviu duas mensagens que não foram combinadas e que terminaram no mesmo lugar.
De manhã, o Dr. Matt Lucas, presidente de Ministérios Pão Diário, abriu 2 Crônicas 34 e perguntou como se perde a Palavra de Deus dentro da casa de Deus.
À noite, o Pr. L. Roberto Silvado abriu 1 Coríntios 11 e explicou o que Paulo quis dizer com “examinem-se antes de comer do pão”.
Uma falou de um templo em reforma; a outra, de uma mesa. As duas falaram de nós.
Procurando ouro, encontraram diamantes
O Dr. Matt começou com uma história brasileira. No século XVIII, mineradores de Minas Gerais procuravam ouro e, no meio do cascalho, apareciam umas pedrinhas claras e brilhantes. Como não era o que procuravam, jogavam fora; alguns usavam as pedras para marcar pontos no baralho. Até que alguém reconheceu o que eram: diamantes. Pelos 150 anos seguintes, o Brasil foi o maior exportador de diamantes do mundo. “Eles procuravam uma coisa e encontraram outra. Achavam que tinham algo de valor e descobriram algo muito mais valioso. E quase deixaram passar.”
Era a introdução para Josias. Ele virou rei aos oito anos, depois de um avô, Manassés, que construiu ídolos dentro do templo e sacrificou os próprios filhos, e de um pai, Amom, tão perverso quanto, morto pelo povo depois de dois anos. Aos dezesseis, Josias começou a buscar a Deus. Aos vinte, limpou Judá dos altares idólatras. Aos vinte e seis, mandou restaurar o templo e levantou a prata para pagar os operários. Dez anos de busca, muita energia, um projeto bonito. E então, enquanto retiravam o dinheiro do tesouro, o sacerdote encontrou o Livro da Lei. Ninguém sabia que ele existia.
Como se perde a Palavra de Deus na casa de Deus?
“Como é possível ter toda essa paixão para se livrar da idolatria e desconhecer a Palavra de Deus?”, perguntou o pregador. “Josias é apaixonado, mas não tem fundamento. Ele tem toda a forma e a aparência de religião, mas não tem o cerne.” E resumiu: “muita atividade religiosa sem o cerne da fé”. Eles foram ao tesouro buscar prata e encontraram a Palavra, como os mineiros, procurando uma coisa e encontrando outra. Felizmente, Josias reconheceu o que tinha nas mãos.
O Dr. Matt não deixou a história longe. “Nós temos um problema e olhamos primeiro o nosso extrato bancário, não o Senhor. Quando não sabemos o que fazer, não pensamos: vou atrás do que a Escritura diz.” E foi mais fundo: “eu mesmo, muitas vezes, sou como esses homens da história. Muita atividade, muita paixão, muita energia, nenhum fundamento sólido.” O povo de Josias achava que o templo precisava de reforma; o que precisava de reforma era o coração deles. “Eu vejo uma situação e penso: isso tem que ser reparado. E não vejo que eu preciso ser reparado.”
Foi aí que ele falou a frase do dia. “É fácil olhar para fora e ver tudo o que precisa ser consertado. É fácil pensar que a eleição de hoje vai resolver tudo. Mas o que o Brasil precisa é uma reforma espiritual. E ela precisa começar em mim. Não neles. Em mim.”
O que Josias fez com o que encontrou
Josias podia ter se defendido: “olha tudo o que eu já fiz em dez anos, eu tinha a intenção certa, eu reconstruí o templo”. Em vez disso, rasgou as roupas. “A grande ira do Senhor foi derramada sobre nós, pois nossos antepassados não obedeceram à Palavra do Senhor” (2 Crônicas 34.21). Ele se arrependeu, leu o Livro para toda a nação, convocou o povo ao arrependimento, e eles descobriram que havia gerações não celebravam a Páscoa, a festa que lembrava quem Deus é e quem eles eram. Tinham o prédio do templo e tinham esquecido o principal. A Páscoa que celebraram em seguida foi a maior da história de Israel (2 Crônicas 35).
O pregador trouxe então os números da Bíblia no Brasil, e eles contam a mesma história. Em 2024, o Brasil distribuiu 4,1 milhões de Bíblias impressas, liderou o mundo em downloads (16 milhões) e gerou 5 bilhões de leituras de capítulos online. “É muita Bíblia.” E, pela primeira vez, há mais brasileiros que não leem a Bíblia do que leitores: 53%. A esperança é a próxima geração: entre os adolescentes brasileiros, 20% leem a Bíblia com frequência e 58% estão abertos a ela, contra 8% no restante do mundo; na Semana Santa deste ano, 1,2 milhão de pessoas por dia usaram a YouVersion no Brasil. A pesquisa do Centro de Pesquisa Bíblica do Pão Diário mostra que o problema não é acesso: é falta de rotina, esquecimento, dificuldade de fazer da Bíblia uma prioridade. “O povo de 2 Crônicas 34 não perdeu a Bíblia do dia para a noite. Foram muitas pequenas escolhas, ano após ano.” E a pesquisa confirma o que a Bíblia já dizia: quem lê, reflete e aplica a Palavra quatro vezes por semana ou mais cresce mais e cai menos. “Leia. Leia com frequência.”
Ele terminou com três perguntas, para responder a si mesmo, “não ao irmão do lado, nem aos outros brasileiros”.
- A sua Bíblia está perdida, acumulando poeira, mesmo com várias no celular?
- Você precisa de uma reforma espiritual, com muita energia religiosa e o cerne faltando?
- As suas práticas religiosas estão embotando as Escrituras, encaixadas só quando é conveniente?
“Eu já caí nos três.” E a última frase do sermão: “não é o voto desta eleição que vai consertar o Brasil. A Palavra de Deus vai.”
A mesa que nos examina
À noite, o Pr. Roberto começou pela mesma nota: “a mensagem de hoje cedo falou de Josias, de voltar para o Senhor, de recomeçar; a de hoje à noite não é diferente”. O tema era uma das lições do Sementes, o discipulado básico da IBB, que ele recomendou até para quem é crente há décadas: “é como chegar diante da prateleira e colocar os livros em ordem”.
A igreja de Corinto celebrava a Ceia como Jesus celebrou: num jantar. Os ricos chegavam com comida; os escravos chegavam tarde, depois do pôr do sol, e encontravam a mesa vazia. É para essa igreja dividida que Paulo escreve que “quem come do pão ou bebe do cálice do Senhor indignamente é culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor” (1 Coríntios 11.27). “Indignamente”, explicou o pastor, quer dizer sem amor pelos irmãos; o problema de Corinto era a falta de sensibilidade com os pobres e as divisões do versículo 18. “Quando participamos sem seriedade, estamos dizendo que isso é mais uma brincadeira religiosa.”
Por isso a Ceia se repete: ela nos leva, periodicamente, ao autoexame, “para ver como estamos vivendo diante do Senhor e diante dos irmãos”. E aqui veio a frase que todo mundo já ouviu: “esse mês eu não tomei a Ceia, porque briguei com a minha mãe, com a minha esposa”. “Isso é um atestado”, disse o pastor. “Um atestado de falta de saúde espiritual. Um atestado de fracasso cristão.” Examinar-se não é descobrir que não merecemos e ficar longe da mesa. É reconhecer a fragilidade, arrepender-se, pedir perdão, “ou pelo menos dizer: Deus, eu ainda não consigo perdoar, mas o Senhor me ajuda, e eu vou participar da Ceia, porque dependo da tua graça e da tua misericórdia para restaurar esse relacionamento”. Participar com seriedade renova por dentro. “Esse é o propósito da Ceia.”
Transforma, contém ou relembra?
A segunda parte da mensagem foi uma aula sobre como a Ceia foi entendida em dois mil anos. A transubstanciação, palavra-chave transforma, ensina que o pão e o vinho se tornam de fato o corpo e o sangue de Cristo; é a posição católica romana e ortodoxa, formulada por Tomás de Aquino, declarada dogma no IV Concílio de Latrão em 1215 e confirmada em Trento. A consubstanciação, palavra-chave contém, ensina que o pão continua pão, mas passa a conter Cristo, como o ferro na brasa continua ferro, mas agora é ferro com calor; é a posição de Lutero, seguida por luteranos, anglicanos e parte dos reformados. Nas duas, a Ceia é sacramento, canal da graça, e a bênção vem de fora para dentro, nos elementos.
O memorial, palavra-chave relembra, é a posição dos batistas, dos congregacionais e da maioria das igrejas livres, conhecida pela Reforma com Zuínglio, em 1523. Os elementos não mudam: são símbolos de uma realidade maior. “Cristo é recebido pela fé apenas, não pelo pão e pelo vinho.” E, porque são símbolos, há liberdade. É por isso que a IBB serve suco de uva em vez de vinho, por amor aos irmãos que lutam contra o álcool, e, há muitos anos, um pão que celíacos podem comer: “uma substituição feita para incluir”. Símbolos estão em toda parte, lembrou o pastor, na aliança do dedo e no título de eleitor que cada um mostrou naquele mesmo dia. Jesus pegou algo que fazia parte da vida, o pão e o cálice, e disse: façam isto em memória de mim.
“Tirou toda a magia?”, perguntou ele. “A magia foi retirada. Mas o sobrenatural continua acontecendo. Onde? No coração de quem participa.” A bênção não está em quem orou nem nos elementos; está na conexão com Deus junto com o povo de Deus. Por isso não celebramos a Ceia sozinhos em casa.
Comer dignamente é amar
Os coríntios comiam indignamente porque os elementos tinham deixado de simbolizar algo real na vida deles. “Comer indignamente é não reconhecer o valor do corpo de Cristo, a Igreja. Era falta de amor.” E o pastor mostrou onde esse amor aparece: quando a igreja contribui para um adolescente ir ao acampamento, para um casal pagar o encontro, para uma viagem missionária acontecer; quando o pequeno grupo pergunta o que está fazendo por quem está sem dinheiro, doente, em crise no casamento. “A Ceia nos desafia a renovar nossos votos para viver comunidade.”
Antes dos elementos, o desafio: “eu tenho usado bens, tempo e habilidades para abençoar as pessoas ao meu redor, ou tenho bebido indignamente?”. E as três frases que ficaram na tela: hoje decido viver em comunhão com meus irmãos; hoje abandono os pecados que me separam do meu Deus; hoje confesso Jesus como meu Senhor e Salvador.
As duas mensagens falaram da casa de Deus. Em Jerusalém, o templo estava de pé, com obras em andamento, e a Palavra estava perdida lá dentro. Em Corinto, a mesa estava posta toda semana, e o amor tinha sumido dela. Nas duas, o prédio e o rito continuavam, e o essencial tinha se perdido. E nas duas a resposta foi a mesma: Josias rasgou as roupas e se arrependeu; Paulo mandou examinar-se antes de comer.
Num domingo em que o país inteiro olhava para a urna, os dois pregadores olharam para dentro. “A reforma precisa começar em mim”, disse o Dr. Matt. “Examine-se a si mesmo antes de participar”, disse o Pr. Roberto. Não é um convite para se achar pior do que Josias ou do que os coríntios; o pregador avisou duas vezes que não somos melhores do que eles. É um convite para procurar o que está perdido na nossa casa de Deus. Para uns, é a Bíblia acumulando poeira no celular. Para outros, é a reconciliação que vem sendo adiada de Ceia em Ceia. Para todos, é a mesma pergunta: o que você vai fazer hoje para encontrar?
Artigo produzido pelo Ministério de Comunicação da IBB a partir das mensagens ministradas em 04/10/2026 pelo Dr. Matt Lucas (2 Crônicas 34.1-21), presidente de Ministérios Pão Diário, com tradução de Marília, e pelo Pr. L. Roberto Silvado (1 Coríntios 11.23-34), na série “Entenda a Ceia do Senhor”.