A mãe que não esquece e a mãe que amamenta: de onde vem a compaixão que entregamos?

Discipular | publicado há 18 horas

A mãe que não esquece e a mãe que amamenta: de onde vem a compaixão que entregamos?

As duas mensagens do último domingo usaram a mesma analogia sem combinar. Talvez não seja coincidência. 

Há semanas em que as mensagens de domingo se somam. Esta foi uma delas. De manhã, o Pr. Marcos Paulo pregou sobre a igreja missional a partir de Romanos 5. À noite, o Pr. Thiago Chabaribery falou de discipulado a partir de 1 Tessalonicenses 2. Temas diferentes, textos diferentes, pastores diferentes. E, no meio dos dois sermões, apareceu a mesma figura: uma mãe com um filho no colo. 

Na mensagem da manhã, ela veio de Isaías 49: pode uma mãe esquecer-se do filho que ainda mama? Ainda que ela se esquecesse, Deus não se esquece de nós. Na mensagem da noite, ela veio de Paulo, que diz aos tessalonicenses que foi entre eles "como a mãe que alimenta os filhos e deles cuida" (1 Ts 2.7). 

Durante a semana, nas redes e no e-mail, repercutimos os dois lados dessa história: o discipulado por delivery, que entrega conteúdo e retém a vida, e o crente SSS, que recebe a salvação e fica sossegado. Este artigo tenta olhar para o que está embaixo dos dois: a compaixão que recebemos tem um formato. E esse formato define a compaixão que entregamos. 

A compaixão de Deus tem o formato de uma mãe 

Romanos 5 descreve a nossa condição sem rodeios: desamparados, pecadores, inimigos. Não é figura de linguagem. Era a nossa situação real diante de Deus. E o texto não diz que nos esforçamos para sair dela. Diz que, quando estávamos completamente desamparados, Cristo veio. 

Esse "veio" é o coração da compaixão. Compaixão não é sentir pena de longe. É ver a condição do outro e mover-se em sua direção. É por isso que o Pr. Marcos Paulo insistiu que missional é diferente de missionário: missionário tem o sentido de envio; missional tem o sentido de encarnar, descer, conviver, estar perto. Jesus é Deus encarnado, e cada página dos Evangelhos mostra isso: diante da fome, ele alimenta; diante do cego que grita, ele toca; diante da viúva de Naim, ele diz "não chore" e devolve o filho. 

A imagem de Isaías 49 diz algo que uma definição não diria. Uma mãe que amamenta não cuida do filho porque ele merece. Ela cuida antes que ele saiba agradecer. Ela se levanta de madrugada sem que ninguém peça. O vínculo vem antes da resposta. É assim que Deus se move em nossa direção. 

Mas o Pr. Marcos Paulo fez questão de não parar aí, e é bom não parar. Se a compaixão fosse tudo, Deus poderia ter ficado cuidando das nossas feridas para sempre. Ele foi mais fundo. Jesus morreu porque o nosso problema não era só sofrimento; era pecado. A justiça de Deus vai à causa. Na cruz, compaixão e justiça se encontram. Deus não abandona a justiça para exercer compaixão, nem abandona a compaixão para exercer justiça. 

"Mas Deus nos prova seu grande amor ao enviar Cristo para morrer por nós quando ainda éramos pecadores." (Romanos 5.8) 

Uma mãe que ama de verdade também não fica só no consolo. Ela leva o filho ao médico, mesmo quando dói. Ela corrige. Nós queremos alívio; Deus também quer transformação. 

A compaixão que entregamos tem o mesmo formato 

É aqui que a mensagem da noite entra como continuação natural da manhã. 

Paulo, escrevendo a uma igreja que começava a suspeitar que ele fora apenas mais um pregador de passagem, poderia ter listado credenciais. Em vez disso, lembrou o que viveram juntos. Quatro vezes em poucos versículos ele diz alguma versão de "vocês são testemunhas". Sua melhor defesa não foi um argumento, foi uma vida exposta. 

E a figura que ele escolhe para descrever essa vida é a mesma de Isaías: a mãe. Um apóstolo que já tinha sido preso e apedrejado poderia ter se comparado a um general ou a um juiz. Escolheu o colo, o lugar onde não existe teoria, só presença. 

O Pr. Thiago contou que, quando o primeiro filho nasceu, ele e a esposa chegaram ao parto com informação de sobra. Livros, cursos, conselhos. E, em poucas horas, descobriram a distância entre saber e viver. Nenhum livro ensina a diferença entre o choro de fome e o choro de dor. Isso se aprende com o bebê no colo. Aquilo que custou tanto no primeiro filho, eles conseguiram passar adiante com os gêmeos. 

É exatamente assim que Deus multiplica discípulos: alguém compartilha a vida com você, você aprende nesse convívio e um dia transmite a outra pessoa o que recebeu. Não a informação. O jeito. 

"Nós os amamos tanto que compartilhamos com vocês não apenas as boas-novas de Deus, mas também nossa própria vida." (1 Tessalonicenses 2.8) 

Há duas entregas nesse versículo, e a maioria de nós só faz a primeira. Entregamos o conteúdo e retemos a vida. Mandamos o link do sermão, o áudio do pastor, o versículo no story. Tudo isso é bom. E nada disso é a nossa vida. Discipular assusta não porque falte conteúdo, mas porque exige a disposição de ser conhecido: alguém vendo como tratamos a família num dia difícil, como reagimos quando falta dinheiro, como é a nossa casa sem arrumação para impressionar. 

E, do mesmo modo que a compaixão de Deus não dispensa a justiça, a compaixão que entregamos não dispensa a verdade. Paulo foi mãe no versículo 7 e pai no versículo 11: encorajava, consolava e também confrontava, cada um do jeito que cada um precisava. Relacionamento sem evangelho vira apenas amizade. O objetivo nunca é fazer alguém depender de nós, mas ajudá-lo a viver cada vez mais perto de Jesus. 

O que muda quando os dois sermões se juntam?

Juntando as duas mensagens, uma coisa fica clara: não existe missão sem discipulado, nem discipulado sem missão. O PGM que só cuida dos de dentro esqueceu de olhar pela janela. O evangelismo que grita a mensagem de longe, sem entrar no mundo do outro como Cristo entrou no nosso, esqueceu da encarnação. 

Isso tem consequências bem concretas na IBB. Um pequeno grupo de homens ou de mulheres que se reúne num condomínio começa a perguntar quais crianças ali estão sem referência. O trabalho do ABC Vida quer ir além da cesta básica. O Páscoa Cidade pergunta não só quem sofre, mas por que sofre. E cada um de nós, no tribunal, na escola, na empresa ou no serviço público, carrega o Reino para dentro da própria profissão, inclusive quando isso custa o emprego. 

Tudo isso nasce de um mesmo lugar: fomos alcançados por uma compaixão que tem o formato de uma mãe que não esquece e de um Pai que trata a raiz. E somos chamados a entregar exatamente isso. 

Talvez você tenha chegado até aqui pensando em alguém. Alguém cuja dor você parou de perceber. Alguém de quem se afastou. Alguém que precisa não do seu conteúdo, mas do seu tempo, da sua casa, da sua vida exposta. 

Ou talvez tenha percebido que é você quem precisa de alguém caminhando ao lado. Isso também é discipulado. Pedir acompanhamento é um ato de coragem, não de fraqueza. 

Deus não nos tirou da condição de mendigos para nos deixar sentados. Ele nos chama para reinar em vida com Cristo. E reinar, na prática, começa pequeno: um café marcado, uma visita numa semana cheia, um perdão concedido, uma pergunta feita ao bairro. Aquilo que custou caro a Deus não pode ser barato para nós. 

Com quem você vai caminhar em direção a Jesus nesta semana? 


Artigo produzido pelo Ministério de Comunicação da IBB a partir das mensagens ministradas em 13/09/2026 pelo Pr. Marcos Paulo (Romanos 5.1-11,17) e pelo Pr. Thiago Chabaribery (1 Tessalonicenses 2.5-12).

Mais Notícias

VIDA IBB

...
Igreja Viva | publicado há 1 ano
AVISO IMPORTANTE: Esse texto contém spoilers dos filmes da saga Star Wars e da vida dos apóstol...
...
Igreja Viva | publicado há 1 ano
Nossa vida é feita de momentos de espera, e alguns desses momentos podem ser angustiantes, mas...

ver todas